Diante da catastrófica situação
do mundo capitalista com suas diversas mazelas e, em nível nacional, aonde
"contemplamos" uma política institucional corrupta, nossa crítica
libertária se encontra provida de argumentos, espelhados, não em meras
especulações filosóficas, mas nos fatos do cotidiano. Será que se trata apenas
de um período de crise do "partidarismo" e, devido aos mensalões
ocorridos a tempos atrás, bem como uma crise da "esquerda partidária"
?
Para nós, anarquistas e
libertários, não se trata disso; todos os acontecimentos, envolvendo as
políticas de Estado, acontecimentos esses que demonstram a caducidade de tal
sistema falido, constatam que mudanças, pro vias parlamentares através de suas
respectivas potícias eleitorais são extremamente inviáveis. Frente a toda essa
desordem, resistimos, com as visões àcratas de uma "Nova Sociedade",
onde a prática da autogestão se apresenta com uma peça importante para as
engrenagens de uma verdadeira transformação social.
O que vem a ser
"autogestão"? Ao pé da letra quer dizer; "Administração de uma
fábrica/empresa por parte dos próprios trabalhadores", mas, na prática, o
que seria? Numa determinada localidade, a autogestão possibilitaria às pessoas
terem o poder de decisão sobre os assuntos que envolvem suas próprias vidas,nas
mais diversas esferas do cotidiano. As prática autogestionárias se dão também
no âmbito do trabalho, onde os próprios trabalhadores têm sob seu controle as
fábricas, as terras e os setores de serviços, onde desaparecem as relações
hierárquicas e a figura grotesca do patrão.
Nos locais de trabalho, o
espectro do desemprego é algo que
esvazia o sentimento de solidariedade das classes trabalhadoras, fazendo-as
lutar entre si, ao invés das mesmas se unirem contra os detentores dos poderes
vários. Um indivíduo que se encontra desempregado, devido às escassas ofertas
de emprego,
com certeza, sabe desempenhar uma determinada função- ou até várias delas , que
é satisfatória, mas , quando consegue arrumar um serviço, nem sempre é colocado
na função que mais lhe agrada, mas naquela que convém ao empregador (patrão).
Será que não seria melhor, tal
indivíduo trabalhar na área em
que têm mais aptidão e, dessa forma, transformando sua ação em algo agradável e
mais prazeroso, produzinto mais e melhor? Isso seria possível através da
autogestão, sendo que essa última poderia ser uma das saídas para o problema do
desemprego em massa.
Aí, muitos perguntam: Será que
num determinado local onde a autogestão funcionasse, seria possível suportar as
pressões exteriores do capitalismo? Um exemplo hipotético. Num determinado
bairro, a população resolve trabalhar coletivamente, se autogerindo, através de
uma igualitária distribuição de funções e benecíficios, eliminando, assim a
dependência em relação aos orgãos municipais, atrelados estes ao governo
institucional e aos seus respectivos partidos políticos que o dirigem. O tempo
passa e aquele exemplo começa a incomodar os poderes instituídos, tais como
empresários e "vanguardas iluminadas" pela "ciência da
transformação social", que resolvem realizar um combate , através, por
exemplo, de boicote àquele bairro. O boicote dá resultados destrutivos e todo o
trabalho de base realizado por aqueles moradores vai por água abaixo.
Vemos, com isso, que tal colapso
não acontece pela prática da autogestão em si, mas do isolamento a que ficou
submetida tal iniciativa dos moradores de tal bairro. Isso demonstra que sua
"autosuficiência" é algo impossivel de serem, com isso alcançados
resultados satisfatórios. Vamos supor, porém, que existam, não apenas uma
experiência do tipo, mas que tal idéia e prática tenha se expandida para outros
locais. Vamos supor que existam várias unidades numa determinada cidade, região
e país, trabalhando de forma autogestionária e, dessa forma , ficaria bem mais
difícil que tal "bancarrota" acima descrita, viesse a acontecer.
Nesse ponto, é que complementamos
as práticas da autogestão, com o federalismo libertário, que representaria,
assim, uma extensão da autogestão para o âmbito da política. Mas, aqui, não se
trata, de forma nenhuma, da política estatal, mas sim das relações políticas do
dia a dia ... "Existe política além do voto, existe sim, vida ,
além do Estado".
Ao federalismo, caberia, assim, a
integração das vária unidades autogestionárias, numa coordenação de ações,
trocas recíprocas através do apoio mútuo entre as mesmas, bem como a livre
associação entre indivíduos pertencententes a uma mesma localidade. Seu
funcionamento , acontecendo através de assembléias de base, onde as pessoas,
decidindo por si só, sem políticas arbitrárias de um determinado político ou
partido, ou, mesmo de um grupo de especialistas, não seria dessa forma, apenas
viável como de uma urgente necessidade.
Em períodos estipulados, através
de acordos, assembléias populares em que, cada unidade federada enviasse um
representante (delegado), com pautas para discussões e debates com
representantes das demais unidades. A autogestão, através da coletivização de
terras e da tomada de fábricas pelos trabalhadores, sob os princípios
anarquistas de organizações como a C.N.T (Confederación Del Trabajo) e da
F.A.I. (Federação Anarquista Ibérica) demonstrou sua eficácia no período da
Revolução Espanhola (1936-1939) como tem demonstrado também, só pra citar um
exemplo de práticas libertárias , na atualidade, os trabalhos realizados pelos
compas da F.A.R.J. (Federação Anarquista do Rio de Janeiro).
Seria interessante
nos reportarmos para as citações de René Berthier, no coletânea sobre
autogestão, aonde o mesmo faz algumas citações sobre a ação de militantes
anarco-sindicalistas na espanha revolucionária:
"Autogestão" é,
antes de tudo o meio de pôr em aplicação o princípio: "a emancipação dos
trabalhadores será a obra dos próprios trabalhadores. Isso implica estruturas
organizacionais que permitem a aplicação deste princípio. Essas estruturas são,
de saída, essencialmente organismos de base que permitem a expressão de todos
os trabalhadores, simulaneamente no plano da empresa e no local de moradia
(...) Como as diversas empresas e localidades de um país podem organizar-se sem
que isso descredite o princípio da autogestão? Segundo os anarco-sindicalistas,
a organização geral da sociedade em regime de autogestão só pode se dar pelo
federalismo (...) O federalismo se opõe ao centralismo no sentido em que o
primeiro funciona de baixo para cima, enquanto o segundo funciona de cima para
baixo, sem consulta prévia. O federalismo estabelece o interesse geral por meio
de consulta de nível em nível, o centralismo impõe-se sem determiná-lo ou
discutí-lo . No sistema federalista, quando o trabalhdor transmite ou delega tudo
ou parte de seus direitos a mandatários, individuais ou coletivos, é apenas
após discussão e acordo preciso, sob controle permanente e severo. Ele pode, a
todo momento, revogar seus mandatários e substituí-los. No sistema centralista,
fosse ele "democrático", a base não tem, definitivamente, nenhum
poder sobre o cume (...)"
A autogestão, em conjunto com
práticas como o federalismo libertário, no âmbito da pólítica e também , tendo
como ferramentas de luta, o apartidarismo, a democracia direta, a ação direta,
entre outras, elimina poderes manipuladores, bem como intermediários e
aproveitadores de quaisquer espécies.Quem verdadeiramente conhece as condições
de vida dos moradores das periferias? Serão eles mesmos ou , serão pessoas que
sentam-se em confortáveis gabinetes e, nos dias que antecedem as eleições apelam
para o "apoio nas urnas" por parte dessa mesma população?
Para nós, socialistas
libertários, somente se organizando de forma anárquica, através da autogestão,
do apoio mútuo, da democracia direta e do federalismo libertário (ferramentas
essas que usamos como meio e fim, em nossa luta) é que o o povo terá condições
de ser o sujeito participante de sua própria emancipação. Nossa indignação frente às mazelas, tais como precariedade da saúde, do transporte público, entre outros não cabe nas urnas - que se mostraram como ineficientes no ato de se "resolver problemas". Não pretendemos,
aqui, elaborar um "manual de transformação" e, muito menos, esgotar
os assuntos e as questões que foram levantados, mas, tão e somente, iniciar
discussões sobre a temática da "autogestão generalizada" e
apresentarmos suas propostas como viáveis e, sobretudo, como alternativas ao
atual e caótico sistema. Vale a pena lembrar que a autogestão é mais uma
ferramenta de luta e, também de organização a qual almejamos. Várias foram, e também tem sido as experiências, mobilizações
e soluções práticas dos anarquistas, onde os mesmos apresentaram e apresentam
soluções válidas frente ao capitalismo.
Por: Giuliano Rossini.
Fontes: Texto, publicado no Boletim : "Balaio de
Pólvora", nº 07.

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